Pelé comemorando o título da Copa do Mundo de 1970

Copa de 1970: o time perfeito e o gol mais bonito de todas as finais

Aos 86 minutos da final, no Estádio Azteca em ar rarefeito a 2.240 metros de altitude, a bola começou na grande área brasileira no pé de Tostão. Passou por Brito, voltou pra Clodoaldo, que driblou três italianos. Saiu pela lateral com Rivelino. Subiu com Jairzinho. Foi tocada de calcanhar por Pelé. E parou aos pés do capitão, que vinha como um trem cargueiro pela direita. Carlos Alberto chutou de primeira. 4 a 1. Quarenta segundos. Nove jogadores haviam tocado a bola. O futebol tinha acabado de ver — e gravar pra sempre — a jogada mais bonita já feita em uma final de Copa do Mundo. Esta é a história do time que veio antes daquele gol, e do que precisou acontecer pra que ele existisse.

Seleção brasileira de futebol da Copa do Mundo de 1970
A seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, no México · Foto: revista El Gráfico / Wikimedia Commons (domínio público)

1969: o time que ainda não existia

A seleção brasileira que iria ao México em 1970 começou a ser construída em fevereiro de 1969, quando a federação contratou um técnico que era o oposto perfeito de tudo o que o regime militar do general Costa e Silva representava. Seu nome era João Saldanha. Era jornalista de esquerda, comunista declarado, gaúcho de fala dura. Tinha sido técnico do Botafogo de Garrincha. Não tinha currículo de seleção. Foi escolhido por gosto pessoal do presidente da federação, João Havelange — que precisava de alguém com prestígio popular suficiente pra conter as goleadas constrangedoras dos últimos amistosos da seleção.

Saldanha aceitou, e em pouco mais de três meses montou um time que parecia ter sido escrito por um romancista. Goleou o Paraguai por 6 a 0 nas Eliminatórias. Goleou a Colômbia por 3 a 0. Empatou com a Inglaterra de Bobby Charlton em Wembley. A imprensa brasileira começou a chamar a seleção de “a Saldanha”. As ruas se acostumaram com a ideia de que aquele time iria pra Copa e ganharia.

O problema é que Saldanha não sabia ficar quieto. Em entrevistas, criticava o regime militar com o mesmo desembaraço com que escalava o time. Em janeiro de 1970, contou que o presidente Médici havia lhe pedido pra convocar Dadá Maravilha, atacante do Atlético Mineiro. Saldanha se recusou. “Eu não escolho ministros pra ele, ele não escolhe jogadores pra mim,” disse ao Jornal do Brasil. A frase virou crise. A federação começou a manobrar pra trocar o técnico antes que ele criasse problemas piores.

A demissão a 90 dias da Copa

Em março de 1970, três meses antes do início da Copa, Saldanha foi demitido. A versão oficial era que ele havia entrado em conflito com Pelé, sugerindo que o jogador estivesse com problemas de visão e não devesse ser convocado. Pelé, anos depois, negaria ter pedido a saída de Saldanha — mas o estrago estava feito. O substituto escolhido foi Mário Jorge Lobo Zagallo, ex-jogador campeão em 58 e 62, técnico do Botafogo, conservador, militar reservista. O regime suspirou de alívio.

Zagallo herdou o time praticamente pronto que Saldanha havia montado. Não mexeu em quase nada. Manteve Pelé no centro, Tostão deslocado pra esquerda, Jairzinho pela direita. Trocou um detalhe: tirou o volante mais defensivo, Dirceu Lopes, e botou Gérson — meia esquerdo de pé canhoto e visão de jogo monstruosa, jogador do São Paulo. A entrada de Gérson reconfiguraria a forma como o Brasil construía os ataques.

Pelé com a camisa da seleção brasileira
Pelé, em 1970, com a camisa que se tornaria a mais reconhecida do mundo · Foto: Wikimedia Commons (domínio público)

As dúvidas da pré-Copa

O time que iria ao México não era unanimidade no próprio vestiário. Pelé, com 29 anos, vinha de quatro anos amargos. Em 1966, na Inglaterra, havia sido caçado a pontapés por defensores búlgaros e portugueses, deixado a Copa coxeando, e jurado: “Nunca mais.” Em 1968, mudou de ideia. Em 1969, marcou o milésimo gol da carreira no Maracanã, contra o Vasco — feito que parou o país por dois dias e foi homenageado com selo dos Correios. Mas a relação dele com a seleção continuava tensa. Sabia que era o esperado. Sabia que se falhasse de novo, sua carreira inteira seria reescrita.

Selo dos Correios homenageando o milésimo gol de Pelé
Selo emitido pelos Correios em 1970 em homenagem ao milésimo gol de Pelé · Foto: Wikimedia Commons (domínio público)

Tostão, o segundo grande nome do ataque, chegou ao México mancando da alma. Em setembro de 1969, durante um treino do Cruzeiro, levou uma bolada no rosto que descolou a retina do olho esquerdo. Foi operado em Houston. Voltou aos campos em janeiro de 1970, com instruções médicas explícitas pra evitar cabeceios. O risco era cegueira definitiva. Mesmo assim, Zagallo não cogitou cortar Tostão da convocação. Sabia que sem o camisa 9 baixinho, calmo e cirúrgico, o time perdia o cérebro.

O calor era outro problema. A entidade do futebol mundial, sob pressão das emissoras europeias, agendou os jogos do Brasil pra começar ao meio-dia, hora local — três horas da tarde no horário europeu. Em junho, em Guadalajara e Cidade do México, o sol ficava direto na linha do meio-campo. A altitude arrancava o ar dos pulmões. Os médicos brasileiros desenvolveram um protocolo de hidratação que, hoje, parece óbvio: água com sal, repouso absoluto pré-jogo, compressas geladas no intervalo. Em 1970, era novidade.

México, junho de 1970: as primeiras imagens em cor

A Copa do México de 1970 entrou pra história por um motivo paralelo: foi a primeira transmitida ao vivo em cores via satélite pra todo o mundo. Antes dela, o futebol era um esporte essencialmente preto e branco. Depois dela, as cores das camisas viraram parte da identidade dos times. A camisa amarela do Brasil — que existia desde 1953, mas nunca havia sido vista assim, com aquele amarelo-canário gritando contra o verde do gramado de Guadalajara — virou ícone planetário em três semanas.

Seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1970
A seleção em campo durante a Copa de 1970 · Foto: Wikimedia Commons (domínio público)

O Brasil estreou contra a Tchecoslováquia em 3 de junho. Saiu atrás aos 11 minutos. Empatou com gol de Rivelino — chute de canhota no canto, da entrada da área. Virou com Pelé, gol que entraria pro folclore: o brasileiro arrancou do meio-campo, levou a bola até a entrada da grande área e bateu no canto direito do goleiro Viktor — um chute técnico, sem força, mas perfeito de ângulo. 4 a 1 no final.

Quatro dias depois veio a Inglaterra, atual campeã do mundo, em Guadalajara. Foi o jogo da Copa. Aos 10 minutos, Pelé cabeceou pro canto direito do goleiro Gordon Banks com tudo o que tinha. Banks, deitado no chão, com a bola já passando dele, esticou a mão, encostou no couro com a ponta dos dedos, e a bola subiu por cima do travessão. A defesa entrou pra história como “a defesa do século”. Pelé, nas entrevistas, diria três décadas depois: “Eu já tinha gritado gol. Era impossível.” Aos 33 do segundo tempo, Tostão deu uma assistência impossível pra Jairzinho, que entrou pra grande área, fez Banks cair pra um lado, e bateu pro outro. Brasil 1, Inglaterra 0.

Semifinal contra o Uruguai: ainda havia conta em aberto

Em 17 de junho, no Estádio Jalisco em Guadalajara, o Brasil jogou contra o Uruguai pela primeira vez em Copa do Mundo desde 16 de julho de 1950. Vinte anos exatos haviam se passado desde o Maracanaço. Os jogadores brasileiros que entraram em campo não jogavam profissionalmente em 1950 — Pelé tinha nove anos quando Ghiggia silenciou o Maracanã —, mas a sombra estava ali. O técnico uruguaio, Juan Hohberg, era um dos jogadores que pisara naquele gramado em 1950.

O Uruguai abriu o placar aos 18 minutos do primeiro tempo, com o atacante Cubilla. O Brasil empatou com Clodoaldo aos 44 do primeiro tempo. No segundo, Jairzinho fez 2 a 1 e Rivelino fechou 3 a 1. O lance mais comentado, no entanto, não foi gol. Foi o “drible sem tocar a bola” de Pelé contra o goleiro Mazurkiewicz: o atacante recebeu lançamento longo, deixou a bola passar entre as pernas, contornou o goleiro pelo lado oposto, recuperou — e, por um momento de hesitação que o futebol inteiro discutiria pelas próximas cinco décadas, chutou contra a trave. Foi o gol mais bonito que não saiu da história das Copas.

21 de junho de 1970: a final no Azteca

A final reuniu Brasil e Itália — que vinha de ter goleado a Alemanha na semifinal por 4 a 3, em jogo conhecido como “o jogo do século”. Os italianos tinham defesa de aço, atacavam pelo contra-ataque, e contavam com Riva e Mazzola. O Brasil entrou em campo com a escalação que entraria pra história: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo; Clodoaldo, Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé, Rivelino.

Aos 18 do primeiro tempo, Tostão lançou pela esquerda, Rivelino cruzou na cabeça de Pelé, que subiu mais alto do que o italiano Burgnich e cabeceou pro canto direito de Albertosi. 1 a 0. O Maracanã, no Brasil, parou. As ruas ficaram desertas — qualquer pessoa que tinha televisão em casa estava cercada por dez vizinhos.

Aos 37, a Itália empatou: Boninsegna aproveitou erro de Clodoaldo no recuo. 1 a 1. O segundo tempo seria do Brasil. Aos 21, Gérson recebeu na entrada da área, ajeitou pra esquerda e bateu de canhota no canto. 2 a 1. Aos 26, Pelé cabeceou para Jairzinho — que se tornaria o único jogador da história das Copas a marcar em todas as partidas da fase final. 3 a 1. E então, aos 86 minutos, veio o gol que abriria este texto. O gol coletivo. Carlos Alberto, capitão, lateral-direito, número 4 nas costas, fechou em 4 a 1.

Pelé comemorando o título da Copa do Mundo de 1970
Pelé comemora o título mundial logo após a final, 21 de junho de 1970, Estádio Azteca · Foto: Associated Press / Wikimedia Commons (domínio público)

A taça que ficou no Brasil

O regulamento da entidade, em vigor desde 1930, dizia: o primeiro país a vencer três Copas levaria o troféu original — a Coupe du Monde — pra casa de forma permanente. O Brasil foi o primeiro a chegar lá. Ganhara em 1958 na Suécia, em 1962 no Chile, e agora, em 1970, fechava a trilogia. A taça Jules Rimet, esculpida pelo francês Abel Lafleur quarenta anos antes, viajaria de avião do México pro Rio de Janeiro pra ser exibida na sede da federação.

O regime militar usou aquela vitória pelos próximos quatro anos. Comissionou a música “Pra Frente Brasil”, do compositor Miguel Gustavo, que tocaria em rede nacional centenas de vezes. Espalhou cartazes com o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o” sobrepondo imagens da seleção. Pelé, em entrevistas tardias, evitaria o tema. Tostão, anos depois, viraria colunista de futebol e confessaria, em texto publicado na Folha de São Paulo em 2012: “Sabíamos. Mas estávamos jogando. Sabíamos.”

A taça Jules Rimet, símbolo do tricampeonato, ficou exposta na federação no Rio até 19 de dezembro de 1983, quando foi roubada por um grupo de assaltantes que arrombaram o cofre durante a madrugada. Nunca foi recuperada. Acredita-se que tenha sido derretida pra venda do ouro.

Cinquenta e cinco anos olhando pra trás

Por que o Brasil de 1970 ainda é, mais de meio século depois, lembrado por jornalistas, jogadores, técnicos e torcedores como o melhor time de futebol da história? A resposta envolve mais do que o talento dos onze jogadores — que era extraordinário, mas não único. A Holanda de 1974, a Argentina de 1986, a Espanha de 2008-2012, todas tiveram talentos comparáveis.

O que fez 1970 ser 1970 foi a constelação. Quatro camisas-10 jogando juntos: Pelé, Tostão, Gérson, Rivelino — todos meias clássicos, todos craques absolutos, todos egos enormes em um mesmo time. Zagallo decidiu que cabiam todos. Cada um se reposicionou: Tostão virou um falso 9, Rivelino virou ponta-esquerda atípica, Gérson virou volante-organizador, Pelé ficou solto pra inventar. Funcionou. Funciona ainda hoje, em qualquer DVR onde você jogue um jogo daquela Copa.

O segundo motivo é o gol do Carlos Alberto. Os romances precisam de uma cena final. As Copas precisam de imagens que reproduzam por décadas em narrativas, capas, recortes. Aquela tabela de 40 segundos com nove brasileiros, terminando com o capitão chutando de primeira na entrada da área, era cinema escrito em campo. Nenhuma final de Copa, antes ou depois, produziu narrativa visual com aquela densidade. É como se o futebol, naquele exato instante, tivesse provado pra si mesmo que era arte.

Os onze jogadores da final foram para casa cheios de medalhas e silêncios. Pelé não jogou mais Copa. Tostão se aposentou aos 27 anos por causa da retina e virou médico. Gérson seguiu jogando até 1976 e virou figura controversa em propagandas de cigarro. Carlos Alberto Torres viraria treinador, depois embaixador do esporte, e morreria de infarto em 2016, sem nunca ter visto o Brasil voltar a jogar com aquela mesma harmonia.

O Estádio Azteca, em Cidade do México, ainda está de pé. O gramado foi trocado várias vezes. As arquibancadas foram reformadas. Mas a placa comemorativa do gol de Carlos Alberto continua na parede da entrada — pequena, discreta, com a inscrição: “21 de junio de 1970. Brasil 4 — Italia 1. El gol más hermoso jamás marcado en una final del Mundial.”


Fontes consultadas: arquivos da revista Placar (junho-julho de 1970); livro “Brasil 70 — uma história desse time” (Tostão, 2010); biografia “Pelé — autobiografia” (Pelé com Robert Caunha, 2006); Jornal do Brasil e O Globo (edições de 22 de junho de 1970); registros do FIFA Museum, Zurique. Imagens em domínio público obtidas via Wikimedia Commons.

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